I Mostra Viva de Teatro de Rua e de Floresta

Amir Haddad e Tanã, Raimundo, Tuã, Bainawá entre outros anfitriãos e lideranças indígenas do povo Huni Kuin, das margens do rio Envira em Nova Olinda, Feijó,  para a I Mostra Viva de Teatro de Rua e Floresta em Rio Branco, Acre.

Saudações do tempo em transições…

O cosmo habita tudo que nos faz mover e assim seguimos insistindo num movimento que recrie a sua própria cosmologia. Um tempo de perceber cada passo e infinitas direções. Do que nos influênciamos e o poder da arte da influência. Abrir afluentes. Assim, nos colocamos a disposição dos ciclos da vida e dos movimentos que se reencontram nas mais diversas expressões.

 O XIII Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua acontecido entre os dias 26 ao dia 31 de agosto de 2013 dentro da I Mostra Viva de Teatro de Rua e Floresta, em Rio Branco, no estado do Acre, pode nos revelar, em cada um dos seus dias vividos, a grandeza de uma resistente floresta e de como poderíamos, mesmo que por pouco tempo, nos sentirmos habitantes do lugar.
 A Amazônia entrou em cena e os anfitriões do grupo Vivarte, Maria Rita, Dani Mirini, Juliano Espinho e Magno Mago adubaram a proposta de viver o teatro dentro da floresta e em diálogo com tudo que dela se expressa. Desde as habitantes centenárias do entorno, como a Samaúma e a Cumaru, aos açudes,  sensações e estados de presença de espírito entre um silêncio e outro em meio há tantas discussões, expressões, reflexões, mutirões e trocas que naquele solo se estebeleceram com grupos que fazem teatro nas ruas de várias regiões do Brasil.

E não faltaram memórias de seringais e seringueiros. Histórias e histórias que inspiraram os teatros de grupos, e grupos que influenciaram histórias de vida e contextos sociais. O Baque do Acre com a Dona Carmem e seu Antônio Pedro. Ouvir a dança e rodar os cantos. Assistir o parceiro e discutir o mundo inteiro. Discordar e recordar de tudo que nos moveu até aqui. Ouvir Bainawá falar de seu teatro. “O que fazemos é teatro, mas não é teatro.”

Buscar água no poço. Por a prova de fogo a resistência sob condições adversas.Outras formas de conforto, já que o contato com a fonte nos possibilitou ir mais fundo em nossas buscas internas.  Mudar as relações a partir da busca pela água e olhar pro seu próprio lixo. Varrer a casa. Ficar nu na frente das árvores e de quem passasse. 

Conflitos e conflitos de posse de terras. Também se ouviu falar e deu pra ver de perto como a floresta vem diminuindo. Madereiros, mineradoras, hidrelétricas, pasto e soja. E os causos sobre o fim dessa civilização. Do “Hauxe Bus”, o nosso condutor de trajetos, conhecido como “Hippie”, um homem estradeiro que só ele: “Enquanto não ocuparmos definitivamente nossas florestas não haverá mais originalidade.” 

 Foi em uma das idas ao banho no poço que encontramos seu Raimundo, de nome indígena anotado em uma caderneta perdida. Huni Kuin: Homem Verdadeiro. O que significa? Meu deus! Como nos sentimos estrangeiros, diante de nossa terra, de nosso povo originário. Jamais viveríamos isso em nenhuma escola primária nem primitiva que fosse. 

Discutimos a arte dos fudamentos e ao ouvir o menino Tuã dizer sobre as mulheres pajés, que para cantar bem cantado, fazem dietas de um ano sem beber água entre outras restrições, nos fazendo questionar o que está por detrás de uma afinação integrada a vida e suas voltas.  Preparações vocais que fecundam novos espíritos. “Mas o que é um ano, a universidade é cinco?” Reforçou uma das vozes passageiras.

Encontro de ritos e perpectivas. E é nas diferenças que o diálogo acontece sem medir as distâncias. E como ouvimos em ressonância magnética, das muitas vezes que os Huni Kuins nos saudavam: Hauxe, Hauxe…

Paz, Paz…

 Abaixo, partilhamos a transcrição de uma das falas do dia que iluminou a tarde do dia 27 de agosto. Aos pés de um resistente seringal, no centro urbano de Rio Branco, Amir Haddad com 55 anos de teatro de rua e fundador do grupo Tá na Rua, abriu o ciclo de discussões sobre resistência cultural e o teatro de rua no Brasil. 



“O que eu faço na vida é me preocupar com a linguagem. De que maneira eu converso com o outro.  E eu achava que bastava eu fazer teatro que eu estava sendo compreendido.
Eu faço teatro a 55 anos e nunca fiz outra coisa na vida, só teatro… sempre fazendo teatro. Minha família não acreditava “como é que você vai viver fazendo teatro?” e eu estou quase morrendo e ainda há muito teatro pra viver.
Então quando eu fui pra rua eu achava que era dono de uma linguagem boa, uma linguagem de comunicação com o mundo. Mas quando eu fui pra rua o meu teatro era para um grupo de pessoas do mesmo grupo social, do mesmo nível de valores, éticos e estéticos, então eu fazia teatro para as pessoas onde eu vivia.  
E quando fui pra rua percebi que eu estava falando para todo tipo de cidadão e não apenas para um grupo homogêneo de pessoas que pertencem em geral, ao mesmo grupo social, com as mesmas caras e roupas e sem ser pejorativo, para as farinhas do mesmo saco. E na rua eu via farinha de tudo quanto era saco. Uma variedade incrível que estava dentro daquele saco de farinha, né?  E eu percebi que na rua não tem nenhuma seleção. Nenhum de nós que fazemos teatro de rua, escolhemos o nosso público. Não há nenhum tipo de discriminação e quem chegar em volta, se a faz platéia. 

E tem cachorro, tem menino de rua, mendigo, têm pessoas bêbadas, trabalhadores, empregadas domésticas, têm executivos, tem todo mundo a sua volta. Então a sua platéia não é mais homogênea, ela é heterogênea.  Você tem que falar com muita gente de diferentes naturezas. Aí começou a questão da linguagem: Como é que eu falo? No teatro fechado eu sabia como falar. E desde então eu vim avançado, e me questionando, como é que eu falo, qual é a dramaturgia, que tipo de espetáculo, qual é a relação que se estabelece entre um ator e um público quando ele está na rua? Onde está o que é verdadeiro pra nós todos? De que maneira eu acho um caminho do coração de vocês, pra através dos seus corações eu possa chegar nas suas cabeças? O único caminho pra cabeça de um homem é o seu coração. 

E quando vemos os índios aqui em suas saudações, o quê que a gente tem de indígena? Como fazemos as nossas rodas, quando nos maquiamos… e ao mesmo tempo que momento é esse que nós estamos vivenciando, o quê pode significar a médio, longo prazo, este encontro? Em que medida estamos construindo aqui, um novo futuro, uma outra sociedade. 

Sobre a história da humanidade… penso a minha vida no ano 1.500 anos, a 500 anos atrás, quando eu saía nas ruas pra dançar na praça, dançar nas ruas, dançar nas aldeias, oferecer os meus movimentos para visitar as moradas superiores da minha alma, quando eu comecei a sair pra rua eu pensava assim, que eu ia voltar pra história. 

Ouve o tempo em que o teatro poderoso era o teatro de rua. Eu voltei pra história quando o teatro ainda não estava nas salas fechadas pra ver se encontro uma saída pro futuro. Eu voltei pra me situar na história do homem e não ficar preso nos valores da ideologia dominante, que são transitórios. Nós estamos vivendo um mundo que está em demolição, em óbvia decadência.

Talvez nos encontramos aí, antes da reforma protestante. Antes das proibições, das danças e dos ritos dos nossos povos indígenas. Antes da palavra ser a única salvação. Ou só podemos ser feliz dentro da livre competição e viver esse horror que nós vivemos hoje?

 Então resolvemos fazer teatro no meio disso tudo, entre uma linguagem aberta, poética e celebrativa e a imitação da realidade, uma mimese. Ou você abre um mundo e põe as coisas em movimento, ou você faz uma imitação da vida em cima da palavra. 

E o teatro também passou por isso. Essa ética nova que a reforma protestante nos trouxe mexeu profundamente com as questões religiosas, do ser humano, com a história da humanidade, colocou novos valores, fazendo o mundo avançar num sentido, mas também mexeu profundamente com a questão da “LINGUAGEM”. 

Mas qual é a linguagem que a palavra me dá, que o sistema capitalista desenvolveu? Fui procurar outra possibilidade de expressão então fugi dessa linguagem e encontrei uma possibilidade de liberdade, de descobrir como viver num mundo sem valores ou defender valores pro meu filho que eu nem mesmo acredito. Onde a sustentabilidade é a exclusão absoluta de quem pode e de quem não pode… 

…e depois de tanta coisa que aconteceu, de tanto massacre religioso, estamos aqui, os índios, os brancos, todos nós aqui, procurando a mesma coisa. E digo mais: não é por acaso que é num encontro de teatro de rua e de floresta que isso acontece. No outro teatro que eu abandonei lá trás, isso não seria possível. Então a rua devolve pra gente o ritual, a rua devolve pra gente a praça, devolve pra gente a maloca, devolve a vida comunitária, a rua devolve pra gente o encontro da cidadania, sem restrição de nenhuma espécie, a rua devolve a idéia básica de qualquer etnia à igualdade, à horizontalidade das relações, a rua devolve pra gente a possibilidade de construção de um mundo novo com todas as pessoas ali presente no seu ato público, a sua cerimônia a sua dança, o seu grito tribal  e isso parece que nós todos ficamos irmãos novamente.  E o teatro deixa de ser de uma classe e volta a ser uma forma de expressão do ser humano. 

Na rua voltamos a ser índios, voltamos a ser brancos, voltamos a ser negros. Na rua não há salvação individual, ou nos salvamos todos, ou nos estrepamos. Eu não posso dizer que o meu estágio de homem branco civilizado é o estágio mais elevado da humanidade. Eu não posso dizer isso, vendo o mundo como está. Podemos ter vivido muito melhor em outros tempos, mas também talvez, tenhamos hoje, muito mais chances de nos recuperarmos se estamos buscando uma outra forma de organização social, de integração, de rede, um mundo novo por debaixo deste que está acabando.

 E isso não é maldição, praga, nem é uma profecia: é história. Nenhuma civilização dura a vida inteira, ela tem ciclos e nós obviamente estamos vivendo o final de uma civilização. Não sabemos qual será, mas vendo vocês aqui, quem sabe isso não é o início de um futuro. Quem sabe as organizações comunitárias, os artistas que se expõem nas beiras dos rios, em todas as periferias, quem sabe se a noção da reconstrução do sentido da arte como obra pública, está o germe desta outra sociedade, através do compromisso de tudo que se faz. Porque não é por dinheiro que existe o artista de rua. Não é o dinheiro que faz o artista de rua, nem a gloria de ser celebridade, nem de fazer comida na Ana Maria Braga. Nada. Nenhum tipo de gratificação que o mundo capitalista oferece. 

Quem sabe este é o germe de uma nova responsabilidade social de uma arte pública, a arte que se assemelha aos rituais de encontro, de identificação, a arte que nos revela as nossas melhores possibilidades. Coisas que só um generoso sentimento artístico pode dizer pro cidadão. A construção do que podemos fazer juntos é o lado que não está competindo, que não está em guerra, que não está conquistando terra, combatendo, matando. 

A Rede Brasileira de Teatro de Rua e todos os movimentos populares e povos e artistas que não produzem pro mercado, abrem esta possibilidade de encontro, apesar de todas as limitações perversas e hoje estamos aqui juntos pra conversar sobre os nossos caminhos…
Há trinta anos começamos com três grupos e hoje o movimento se alastrou de uma maneira incontrolável, trabalhando em todos os recantos, em todas as etnias, como um vírus da generosidade, a peste da poesia, a peste da liberdade, a peste da entrega, da doação, a peste da criação, a peste da beleza, todas essas palavras empesteadas num sistema que quer nos fazer crer justamente no contrário, que somos pessoas absolutamente incapazes de viver coletivamente.

Que somos consumidores egoístas e assassinos, que essa mania de querer viver juntos é uma loucura, que não estamos preparados. Que o homem é o lobo do homem e não tem saída pra isso. Com a derrocada das utopias socialistas do século passado, ficou mais claro ainda que quem pode mais, chora menos. E  a gente viu o avanço do capitalismo sem nenhuma barreira, né. A gente viu o neoliberalismo chegando avassalador, e a gente tá vendo como está o mundo agora, vivendo o capitalismo como se não existisse mais ninguém pra se opor a ele. 

E no meio disso tudo, um vírus, de dentro pra fora, de baixo pra cima. O vírus da solidariedade, coisa horrível! Que quando tentam esconder ele, por ele num canto, ele aparece mais forte. O vírus da generosidade. Como é difícil falar dessa liberdade. E nós estamos aqui no meio da Amazônia, com uma coletividade indígena do nosso lado e todos,  cada um de uma cor, uma variedade de cores fantástica!

…E eu rezo pelo apocalipse, e de dentro das ruínas, ressurgiremos como representantes desse vírus,  poderemos ter algo pra propor. Isso aqui pode ser um momento de futuro que estamos vivendo, o XII Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua na Floresta. A rua é todos os espaços, que pode ser aqui neste seringal, o terreiro de uma tribo, a arte é um exercicio pleno de cidadania livre e ela pode se dar em qualquer lugar. A arte é obra pública e não particular, sempre foi. Só com a apropriação do poder do mercado que faz com que a gente venda a nossa alma o tempo todo. Então queremos recuperar o sentido público da palavra Arte, da atitude artística. Recuperar a noção individual que cada um de nós temos de mundo novo. Isso revela que o melhor do ser humano é a produção do melhor do ser humano, são coisas que nós so podemos fazer com o melhor dos nossos sentimentos.

E apesar de se chamar pública, não há de ser o poder público que vai fazer isso. Não é um domínio, não é uma ditadura, não é o poder público que está fazendo isso, somos nós com a nossa liberdade e capacidade de criar e doar aquilo que nos fazemos. A mesma coisa que leva os índios a ter seus rituais e criar as suas maneiras, nos leva também a proucurar os espaços públicos e a exercê-los sob as nossas capacidades criativas, podemos estar a serviço de todos os deuses como os nossos amigos que dançam em torno do mastro cheio de fitas, e que a gente vai dançando e trançando as fitas. Isso é o teatro conforme o ser humano livre pode fazer e não o que o mercado gosta de comprar. 

 Assim podemos “contaminar” definitivamente as melhores coisas que a alma humana pode ter. A minha palavra aqui…já que a palavra também tem seu valor, né, e eu to aqui usando da palavra, e a minha palavra é que no futuro se constrói a partir da horizontalidade e de encontros como este e desta quantidade enorme de pessoas fazendo cultura, vida cultural nas florestas, nos sertões nordestinos. E em várias regiões neste momento há pessoas fazendo a mesma coisa que estamos fazendo aqui hoje. E isso vai provavelmente nos  surpreender quando em cima não tiver mais nada, embaixo quem sabe, a gente já tem um vaso de um mundo novo muito melhor do que este que nós estamos vivendo.”

(Des) Água, na fonte

             
“…Rezinha benzeira, de mão de molhar, o meu sagrado chegou.
 Até desaguadeiro de minha alma, vale a mim todos os santos”




Rituais e brincadeiras: Resistência Cultural e Arma de luta Política*

 “A promoção da unificação e parceria entre as culturas pressupõe a participação do povo indígena em toda e qualquer diretriz que diga respeito às questões indígenas. Bainawá cita como exemplo o fato de não existir hoje, em nosso país, nenhum símbolo indígena representando o Brasil, só a bandeira brasileira. “Mas essa bandeira não representa o indígena.”   O teatro dentro da aldeia é uma forma de luta e de preservação da cultura. Bainawá cita o katxanawá, que se dança na época dos legumes, ou em outra época onde acontece o katchanauwa das mulheres. Ele afirma que não sabem fazer teatro, mas que sempre o fizeram. Como dramaturgo e diretor, ele se coloca apenas como um coordenador. 

Atuando como um professor bilíngue, ele ensina os textos e as histórias a serem encenadas tanto em português como em hatxakui. Outros dois professores são responsáveis pelas músicas e danças. Sua participação no grupo Vivarte e sua vinda a São Paulo têm uma importância estratégica: ele pretende organizar melhor o que estão fazendo e levar seus espetáculos e brincadeiras para outros públicos, utilizando o teatro como meio de comunicação e arma na luta a favor da questão indígena. Seus espetáculos têm como objetivo contar a história dos povos passados, de como era a aldeia, de realizar através do teatro a transmissão da cultura indígena. Relembram nas suas peças o tempo passado, abordando temas relacionados às várias tentativas de dominação que os indígenas sofreram que visavam torná-lo escravo. Contar como resistiram e, finalmente, como é a vida hoje.” 



Bainawá, que singnifica

*Trecho da entrevista que Bainawá deu a Revista “Poética da Ruado Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo. Para ler a entrevista na íntegra acesse o site do grupo e baixe gratuitamente:           http://media.wix.comugd//a55615_0a73acf3b783b34dac219369bc7713c7.pdf


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